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Agro

Frete mínimo pode elevar custos da produção em até 30% no agro de Mato Grosso

Produtores rurais, cooperativas e entidades do setor avaliam os impactos da lei do piso mínimo do frete na logística agrícola de Mato Grosso

Frete mínimo pode elevar custos da produção em até 30% no agro de Mato Grosso
Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso
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Produtores rurais de Mato Grosso acendem o alerta para os impactos da política do frete mínimo na logística do campo. A avaliação do setor é de que a tabela do piso mínimo pode elevar os custos de produção em até 30%, pressionando margens que já estão apertadas e afetando desde a compra de insumos até o escoamento da safra.

A preocupação ganha ainda mais peso em um estado marcado por longas distâncias até os portos e forte dependência do transporte rodoviário. No campo, o debate envolve a redução do frete de retorno, a falta de flexibilidade da tabela e os reflexos diretos no preço dos alimentos e na inflação.

Para a Aprosoja Mato Grosso, a forma como o piso mínimo é calculado gera distorções tanto para produtores quanto para caminhoneiros autônomos. O presidente da entidade, Lucas Costa Beber, avalia que o modelo atual penaliza principalmente os pequenos veículos.

“O preço mínimo do frete ele traz injustiça tanto para o produtor quanto para o caminhoneiro autônomo principalmente e quanto menor o caminhão, devido os critérios de cálculo, menos ele vai receber e menos lucratividade vai ter, ou seja, ele tira competitividade do pequeno, caso prevalecer esse tabelamento de frete”, diz ao Patrulheiro Agro.

Na prática, situações comuns na logística do agro deixam de existir com a tabela. Um exemplo é o frete de retorno, bastante utilizado no Médio-Norte do estado, especialmente no transporte de calcário.

“O caminhão que passa por Nobres, no retorno o motorista faz questão de não voltar vazio, de procurar por interesse do produtor de levar durante a safra o calcário com frete mais barato, até porque depois ele pode novamente fazer o frete na época normal se puxar calcário para aqueles produtores que não compraram. Ou seja, ele consegue trabalhar o dobro e acaba compensando esse valor que voltaria com o frete vazio”, relata Lucas.

Conforme o dirigente, esse arranjo permite que o caminhoneiro trabalhe mais e compense o custo de viagens que antes seriam feitas vazias.

Lei e impactos na cadeia

A lei do piso mínimo do frete surgiu após a greve dos caminhoneiros de 2018. Hoje, a tabela abrange 12 tipos de veículos e operações. A legislação prevê revisão dos valores a cada seis meses e reajuste automático sempre que o preço do diesel variar 5%, para mais ou para menos.

Mesmo com essas atualizações, o setor produtivo entende que a tabela não reflete a realidade do mercado ao longo do ano. “A tabela não contempla um preço justo do frete que tem variabilidade ao longo do ano”, reforça Lucas Costa Beber. De acordo com ele, entidades do agro estão trabalhando para encomendar um estudo técnico pela ESALQ, em parceria com outras instituições, com o objetivo de refazer os cálculos da tabela.

Além disso, há tentativa de diálogo com o Ministério dos Transportes. “O produtor não tem quem regula e garante um preço mínimo a ele dos produtos e ele acaba ficando absorvendo todo esse custo, todo esse prejuízo”, ressalta ao Canal Rural Mato Grosso.

Na avaliação do presidente da Aprosoja Mato Grosso, o impacto não fica restrito ao campo. “Essa tabela vai acabar causando um aumento de preço também no valor dos alimentos, do óleo diesel, de tudo que a gente utiliza, causando mais inflação no nosso país”, acrescenta. Ele ainda aponta um efeito colateral: o estímulo à formação de frota própria pelos produtores, reduzindo a dependência do frete terceirizado.

Fertilizantes e distâncias elevam custos

No caso dos fertilizantes, o impacto já é sentido de forma direta. Para o diretor executivo do Movimento Pró-Logística, Edeon Vaz Ferreira, a dificuldade está justamente no retorno dos caminhões. “A cada seis caminhões que descem para o Porto um volta com fertilizante, o que está impactando diretamente no custo do fertilizante. O nosso custo de produção subiu com esse tipo de frete que nós estamos tendo que pagar”, pontua.

Além do aumento dos custos, o frete mínimo também gera apreensão sobre seus reflexos na dinâmica do transporte. No campo, a preocupação é como essas mudanças podem afetar o acesso ao frete e a rotina de quem depende da logística para produzir, especialmente nas regiões mais distantes dos grandes centros.

Esse é o caso do produtor rural Adalberto Grando, que cultiva 2,7 mil hectares de soja entre Gaúcha do Norte e Sorriso. Para ele, o peso do frete já compromete a rentabilidade. “O frete de Gaúcha para Paranaguá, por exemplo, Santos, o pessoal fala aí em torno de R$ 500 a tonelada”, relata. O produtor dimensiona o impacto ao comparar o valor com a produção. “Nossa Senhora, o equivalente a cinco sacas de soja uma tonelada”, diz.

A dificuldade de acesso também agrava o cenário. “Em Gaúcha do Norte nós temos apenas uma via com acesso de asfalto, as outras duas são com estrada de chão. Se não tiver o frete de retorno ninguém vai querer ir para lá”, observa. Na avaliação dele, o caminho seria a livre iniciativa. “Acho que teria que voltar a livre iniciativa, se continuar insistindo com essa tabela, com esse preço mínimo, pode subir e pode ficar muito pior”, alerta.

Cooperativas e produtores pedem equilíbrio

Na região de Canarana, o impacto da logística pesa tanto na compra de insumos quanto na venda da produção. O diretor do Sindicato Rural do município, Camilo Ramos, destaca que a localização influencia diretamente nos preços. “Aqui em Canarana, aqui nesta região, nós estamos no centro do Brasil, então é o frete mais caro para se pagar para vir os produtos e a gente é penalizado com o frete mais caro na hora do deságio da venda”, relata. “A nossa logística aqui ela influencia muito tanto no preço da soja para vender ou do milho e nos insumos para comprar”, ressalta à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

A Cooperativa de Transportes Rodoviários de Mato Grosso (Cootromat), com sede em Canarana, reúne cerca de 110 associados e uma frota de 150 caminhões, sendo 80% motoristas autônomos. Conforme o diretor de logística, Sidnei Rogério Weirich, a aplicação da tabela mudou a dinâmica do frete de retorno. “Como a gente está um pouco retirado do Porto em dois mil quilômetros, então onde havia um frete de retorno hoje tem que seguir a tabela, então isso mudou um pouco”, explica.

Outro entrave apontado envolve a diferença de custos entre os tipos de veículos. “E a dificuldade que a gente está tendo referente a questão dos eixos é nos veículos sete eixos. Veículos menores o pessoal não está querendo contratar, porque o nove eixos ele sai em um custo menor”, afirma Sidnei. Para ele, seria necessário ajustar os valores para garantir concorrência justa. “Poderia na distância jogar até mesmo o valor para que o valor seja igual para todo mundo, para que possa competir de igual para igual”, defende.

O temor é que, sem ajustes, o impacto se agrave nos próximos ciclos. O presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, Eder Ferreira Bueno, avalia que a margem do produtor já está no limite. “O lucro ele já está mínimo, a margem ela está espremida, já está praticamente inviável”, afirma. Segundo ele, mesmo com oferta de caminhões, o custo tende a subir. “Vai ter frete praticamente sobrando e vai ter que pagar caro mesmo no frete sobrando”, diz.

Para Eder, o reflexo deve ser mais sentido nos fertilizantes. “Acredito que no próximo ano principalmente nos fertilizantes vai haver um acréscimo no valor o produtor vai ficar com um custo acima de 20% a 30%”, projeta.

Ele defende mais diálogo e equilíbrio. “É um problema sério para o produtor, uma lei nova que foi criada lá atrás e que está sendo implantada aos poucos. O produtor ainda não sabe o que vai acontecer. Tem que ter um equilíbrio porque ficar só no colo do produtor é sofrido”, conclui.

FONTE/CRÉDITOS: Olhar Alerta
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