Durante anos, a construção civil foi apontada como uma das locomotivas da economia brasileira. Responsável pela geração de milhões de empregos e pela movimentação de uma extensa cadeia produtiva, o setor agora enfrenta um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas.
O aumento dos custos de construção, os juros elevados, a dificuldade de acesso ao crédito e a redução das margens de lucro têm pressionado construtoras e incorporadoras em todo o país. O resultado é um crescimento expressivo dos pedidos de recuperação judicial, reestruturações financeiras e casos de obras paralisadas.
Levantamento divulgado pela consultoria RGF mostra que a construção civil concentra mais de 80% das recuperações judiciais registradas no segmento de infraestrutura no Brasil. O índice de empresas em recuperação judicial no setor chegou a 4,12 por mil empresas em atividade, mais que o dobro da média nacional.
Segundo especialistas, o problema não está apenas na demanda por imóveis. Em muitos casos, as empresas continuam vendendo, mas enfrentam dificuldades para absorver o aumento dos custos de materiais, mão de obra, financiamento e obrigações financeiras acumuladas nos últimos anos.
A Construtora Tenda, por exemplo, uma das principais incorporadoras voltadas à habitação popular no país, tornou-se recentemente um dos casos mais emblemáticos de reestruturação operacional da construção civil brasileira. Após acumular prejuízos expressivos entre 2021 e 2022, pressionada pelo aumento dos custos de materiais, inflação da mão de obra, atrasos em obras e redução das margens, a companhia implementou um amplo plano de reestruturação, revisando processos construtivos, reduzindo a alavancagem financeira e retomando o foco em seu modelo original de negócios.
Os reflexos do cenário como este já podem ser observados em Mato Grosso. A Ávida Construtora e Incorporadora, especializada na construção de moradias populares, entrou em recuperação judicial com um passivo superior a R$ 36 milhões. A empresa atribuiu a crise à paralisação de obras habitacionais, dificuldades econômicas, inflação, baixa liquidez e aumento das ações judiciais ao longo dos últimos anos.
O plano de recuperação acabou sendo aprovado pelos credores em 2024, permitindo a continuidade das atividades e a tentativa de reorganização financeira da companhia.
Outro caso emblemático foi o da Engecenter Construtora e Incorporadora, responsável por empreendimentos ligados ao programa Minha Casa Minha Vida. A empresa acumulou cerca de R$ 18 milhões em dívidas e precisou recorrer à recuperação judicial após alegar atrasos em pagamentos e dificuldades operacionais. Embora tenha conseguido superar a crise posteriormente, o episódio ilustra os riscos enfrentados por companhias que dependem fortemente de programas habitacionais e linhas de financiamento público.
Os exemplos registrados em Mato Grosso refletem uma realidade observada em diferentes regiões do país. A crise não atingiu apenas empresas de pequeno e médio porte. Uma das maiores incorporadoras da história do mercado imobiliário brasileiro, a Rossi Residencial, segue operando sob recuperação judicial após anos de dificuldades financeiras. A companhia, que durante décadas figurou entre as líderes nacionais do setor, hoje concentra esforços na geração de caixa e no cumprimento do plano aprovado pelos credores.
Outras gigantes também enfrentaram processos de reestruturação ao longo da última década. Entre elas está a PDG Realty, protagonista de uma das maiores recuperações judiciais da história do mercado imobiliário nacional, além da Viver Incorporadora, que precisou renegociar passivos bilionários para evitar a falência.
Embora algumas dessas empresas tenham conseguido reorganizar suas operações, os casos evidenciam a vulnerabilidade da construção civil diante de ciclos econômicos adversos e mostram que os desafios enfrentados por incorporadoras regionais são semelhantes aos observados em grandes grupos nacionais.
Mesmo que o Minha Casa Minha Vida tenha se consolidado como o principal motor de vendas da construção civil nos últimos anos, especialistas alertam para uma crescente dependência do setor em relação ao programa.
A habitação popular continua registrando demanda elevada e sustentando lançamentos em diversas regiões do país. No entanto, muitas incorporadoras passaram a depender quase exclusivamente dos recursos do FGTS, dos subsídios governamentais e das regras do programa para manter suas operações.
Além disso, o segmento também enfrenta desafios relacionados à qualidade das obras. Dados apresentados ao Conselho da Justiça Federal mostram que as ações judiciais envolvendo defeitos construtivos em empreendimentos do programa saltaram de 724 processos em 2014 para mais de 147 mil ações em 2025.
Problemas como infiltrações, rachaduras, falhas estruturais e atrasos na entrega de unidades continuam alimentando a judicialização e ampliando os custos para construtoras e incorporadoras.
Apesar das dificuldades, especialistas não enxergam uma crise generalizada semelhante à observada em outros momentos da economia brasileira. Ao mesmo tempo, o cenário serve de alerta para um setor que durante muitos anos apostou em expansão acelerada, elevado volume de lançamentos e forte alavancagem financeira.
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