Fraudes em documentos de transporte animal colocam sob suspeita a movimentação de quase 800 cabeças de gado em Mato Grosso e levam investigação da Polícia Judiciária Civil de Querência para a Delegacia Especializada de Combate à Corrupção. O caso, que inicialmente parecia uma inconsistência administrativa isolada, ganhou dimensão estadual após a identificação de emissões consideradas suspeitas de Guias de Trânsito Animal (GTAs), documento obrigatório para circulação de rebanhos no país.
As investigações apontam que os animais teriam origem nos municípios de Querência e Ribeirão Cascalheira, dois importantes polos da pecuária mato-grossense. Já os destinos identificados até o momento alcançam pelo menos seis municípios do estado, entre eles Tangará da Serra, Pedra Preta, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte e Matupá.
De acordo com informações apuradas, cerca de 13 emissões de GTAs estão sob análise. O que chamou atenção das autoridades foi o volume considerado atípico: aproximadamente 800 bovinos teriam sido movimentados em menos de 45 dias, levantando suspeitas sobre possíveis fraudes no sistema oficial de controle pecuário.
A apuração começou após produtores rurais identificarem divergências expressivas nos registros vinculados ao sistema estadual de controle animal. A partir daí, investigadores da Polícia Judiciária Civil de Querência iniciaram o cruzamento de dados fiscais, movimentações eletrônicas e análises técnicas relacionadas ao trânsito do rebanho.


Outro ponto que passou a ser observado durante a investigação envolve divergências entre operações fiscais relacionadas à compra e venda de bovinos e os registros de trânsito animal vinculados às mesmas movimentações. A análise desses dados levantou suspeitas sobre a possível utilização de rebanhos declaratórios sem lastro produtivo proporcional, prática que pode produzir efeitos financeiros, tributários e patrimoniais dentro da cadeia pecuária.
A análise desses elementos levou os investigadores a aprofundarem o cruzamento de informações fiscais, sanitárias e patrimoniais para verificar se parte das movimentações teria sido utilizada para sustentar rebanhos apenas documentalmente registrados.
Com o avanço das investigações e diante da complexidade das movimentações identificadas, a Polícia Judiciária Civil de Querência encaminhou oficialmente o caso para a DECCOR, especializada em investigações envolvendo corrupção, organizações criminosas e possíveis crimes contra a administração pública.
Uma das hipóteses investigadas é a utilização irregular de acessos técnicos ao sistema responsável pela emissão das GTAs. A suspeita é de que movimentações artificiais possam ter sido criadas para dar aparência de legalidade ao transporte dos animais.
Nos bastidores da investigação, fontes ligadas ao caso afirmam que determinadas operações dificilmente ocorreriam sem conhecimento avançado das plataformas de gerenciamento sanitário e documental utilizadas no controle pecuário estadual. Por isso, a investigação também apura possível envolvimento de agentes ligados à estrutura administrativa responsável pelo sistema.
Além do prejuízo econômico, o caso acende um alerta sobre a credibilidade da cadeia pecuária de Mato Grosso. A rastreabilidade animal é considerada estratégica para o controle sanitário, fiscalização tributária e manutenção da confiança internacional na carne produzida pelo estado, um dos maiores exportadores do país.
A DECCOR deverá aprofundar o rastreamento financeiro, identificar possíveis beneficiários e mapear conexões operacionais entre os investigados.
Até o momento, não há denúncia formal apresentada pelo Ministério Público e as investigações seguem sob sigilo.
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